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Boletim AGB - Seção
Niterói - N.13
Outubro, Novembro,
Dezembro de 2006
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Editorial
No Brasil e no Mundo
vivemos um período de incertezas onde o estatuto de algumas
definições, como: verdade, ideologia, história, esquerda, entre
outras, parecem querer entrar em desuso. Dessa maneira é preciso que
reafirmemos o nosso compromisso com o “trabalho” que a princípio não
está circunscrito na esfera dos individualismos e não pode se
resumir em provérbios do tipo: “quem pariu Matheus que o embale”.
Neste sentido, vale resgatar alguns exemplos e não mártires. Falo da
vida do pensador Italiano Antonio Gramsci, que no nosso entendimento
nos faz refletir sobre o tempo presente. Gramsci nasceu no Sul da
Itália em uma família de classe média. Na vida adulta cursa a
Faculdade de Letras e se filia ao Partido Comunista Italiano, onde
se torna um polemista e publica constantemente em periódicos da
época, este se dedica a pensar “programas de ação”. E como não
poderia deixar de ser, traz no bojo de sua obra uma interessante
reflexão sobre o intelectual e o seu papel na sociedade como um todo
ao redor da definição de “intelectual orgânico”. Podemos afirmar que
as suas reflexões estão carregadas de vida no sentido de que este
pensador jamais dissociou a sua atividade intelectual das suas ações
e possibilidades de transformação da realidade vivida. Gramsci em
1926 foi encarcerado pelo regime Fascista Italiano que declara ser
necessário paralisar este cérebro, este passa 11 anos no cárcere. No
entanto, neste mesmo período, de 1929 até 1935, ele escreve os
volumes dos seus conhecidos Cadernos do Cárcere. Já em 1937, Gramsci
sai da reclusão praticamente para morrer.
A partir disso concluímos que a AGB enquanto uma instituição
cultural, científica e profissional, deve ter a clareza de sua
importância histórica no campo da produção científica geográfica no
Brasil. No entanto, não deve esquecer da importância da sua
participação e intervenção nos debates nacionais: a questão das
cotas, movimentos sociais, a reforma agrária, ALCA, etc. Com isto,
não pretendemos declarar ingenuamente uma dicotomia entre ciência e
política, mas o simples fato dessas coisas estarem relacionadas não
justifica o enclausuramento de alguns intelectuais em seus
“gabinetes”. Enfim, ressaltamos que nossa tarefa não se torna menos
ou mais árdua enquanto “intelectuais” ao termos que dar conta das
múltiplas questões defrontadas na complexidade da vida cotidiana. E,
neste sentido, gostaríamos de encerrar este momento com uma reflexão
do cineasta Jean-Claude Bernardet, onde enfatiza que “A história não
fala por si só. Para que fale, é preciso que a façamos falar”.
Felipe Moura Fernandes
A
ESPACIALIDADE DIFERENCIAL DE YVES LACOSTE COMO POSSIBILIDADE DE
TRABALHAR A REPRESENTAÇÃO NA ESCOLA
Como escapar da colocação de um poderoso conceito-obstáculo – a
região-personagem1 – que nos impõe uma divisão do conhecimento
geográfico em verdadeiras “gavetas” desconectadas de coerência e ao
mesmo tempo persiste em contribuir na dualidade entre natureza e
sociedade? Yves Lacoste ao longo de seu célebre livro – A geografia.
Isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra – parece expor
uma saída bastante criativa para os geógrafos que travam uma batalha
epistemológica dentro das salas de aulas ao que concerne tanto na
preocupação em analisar geograficamente os fenômenos espaciais,
quanto ao do papel das ideologias na geografia: a questão da
representação.
Representar significa realizar uma operação pela qual a mente tem
presente em si mesma uma imagem mental, uma idéia ou um conceito
correspondendo a um objeto externo. A função de representação é
exatamente a de tornar presente à consciência às realidades
externas, tornando-a um objeto da consciência, e estabelecendo assim
a relação entre a consciência e o real. A noção de representação
geralmente define-se por analogia com a visão e com o ato de formar
uma imagem de algo.
A
Geografia irá desempenhar essa capacidade de trazer a tona à imagem
espacial primeiramente através dos mapas. Representação espacial por
excelência dos geógrafos. Assim, professor e aluno desenvolvem e
convergem para uma correlação de imagens das quais a troca é
fundamental. Porque ela não se restringe somente ao professor; ela é
compartilhada pela visão também dos alunos que a partir de sua
vivência cotidiana refletem sobre seu território vivido enriquecendo
o conceito do professor. Múltiplas representações espaciais são
justamente o ponto que Lacoste queria demonstrar em seu ensaio.
A
espacialidade diferencial é vista como uma multiplicidade de
representações espaciais de dimensões muito diversas, que
correspondem a toda uma série de práticas e de idéias voltadas ao
raciocínio espacial. Entretanto, seria importante reconhecer a
extrema dificuldade de apreensão do espaço, devido justamente à
complexidade imposta cada vez mais pelas diversas relações contidas
na contemporaneidade. Daí a importância e a função do profissional
de geografia em clarificar a visibilidade dessa complexidade do
espaço geográfico.
Cabe ressaltar que a espacialidade diferencial não parte de algo
dado ou inventado da realidade. Ela é fruto de um processo de
seleção – criação – dos interesses dos indivíduos ou grupos sociais
que a partir de suas práticas espaciais concretas, ampliam a
representação sobre o espaço, aumentando conseqüentemente, a
capacidade de se representar os fenômenos espacialmente. Portanto,
será a partir de um sistema de representação do qual cada cidadão
irá dispor em seu dia-a-dia, é que irá se desenhar toda uma
consciência espacial e logo, uma visão sobre determinadas questões
vinculadas ao seu mundo cotidiano, ou ora em questões ligadas a uma
realidade mais ampla. O desfecho disso será a escala. Outro conceito
a ser explorado pelos geógrafos, entretanto, deixemos
temporariamente de lado essa questão.
Segundo o próprio Lacoste, essas representações, freqüentemente bem
imprecisas, mas que são mais ou menos familiares, proliferam, à
medida em que os fenômenos relacionais de todas as espécies se
multiplicam e se ampliam, pois a "vida moderna" se propaga na
superfície do globo impondo condições de representar tais
diversidades espaciais.
O
desenvolvimento desse processo de espacialidade diferencial se
traduz por essa proliferação das representações espaciais, pela
multiplicação das preocupações concernentes ao espaço (nem que seja
por causa da multiplicação dos deslocamentos).
Mas esse espaço do qual todo mundo fala, ao qual nos referimos todo
tempo, é cada vez mais difícil de apreender globalmente para se
perceber suas relações com uma prática global.
Bruno Ferraz Bartel
Geógrafo – Universidade Federal Fluminense
Vice – Diretor da AGB-Seção Niterói
1-Yves Lacoste
utilizando-se da noção de “conceito-obstáculo” de Gaston Bachelard
criticou veemente a tradição geográfica a partir do conceito de
região, um dos “pilares” entre os acadêmicos franceses, desde a sua
institucionalização enquanto saber científico no século XIX, pelo
seu forte apelo de síntese do conhecimento e despolitização do
discurso geográfico.
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